A realidade para uma filha de Santa Clara é a que está no Evangelho: “O Reino de Deus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra.” (Mt 13,45-46)

Reflexões




(14/02/2014)
O CAMINHO DE FÉ EM CLARA DE ASSIS
Santa Clara e a Lumen Fidei


Gostaríamos aqui de meditar um pouco sobre o caminho de fé “de” e “em” Clara de Assis. Consciente de que “se quisermos compreender o que é a fé, temos de explanar o seu percurso, o caminho dos homens crentes” (LF). Afinal, a fé não é somente uma adesão intelectual a uma doutrina, mas sobretudo um caminho existencial. Vamos tentar unir um pouco os pensamentos e atitudes de Clara com a reflexão da Lumen Fidei, esta preciosa encíclica do Papa Francisco, escrita a “quatro mãos” como ele mesmo diz, com o querido Papa Bento XVI. Ao ler esta encíclica pude várias vezes lembrar-me da experiência de Clara e consequentemente da nossa espiritualidade clariana.

 

Encontro e adesão
Como é, então, a experiência de fé em Clara de Assis? “A verdade que a fé nos descerra é uma verdade centrada no encontro com Cristo, na contemplação da sua vida, na percepção da sua presença.” (LF 30). Bem sabemos que, ainda na casa paterna, Clara já cultivava a amizade com Cristo e desejava sempre mais unir-se a ele (cf. LCL 3-5). Desde o princípio percebemos a fé de Clara como experiência de amor e de adesão. Por isso instruída pelo Pai Francisco, resolve fugir de casa para entregar-se totalmente a Cristo, enfrentando do começo, ao longo e ao fim do seu seguimento todos os obstáculos que pudessem afastá-la de seu Senhor. No início de sua vida consagrada, quando os parentes quiseram removê-la do mosteiro, “ela segurou as toalhas do altar e mostrou a cabeça tonsurada, garantindo que jamais poderiam afastá-la do serviço de Cristo” (LCl 9); e após anos em São Damião, quando o Papa quis amenizar sua pobreza, ela respondeu: “Pai santo, por preço algum quero ser dispensada de seguir Cristo para sempre”.(LCl 14). A fé, em Clara, traduzia-se em seguimento apaixonado de Cristo. “Crer a Jesus” e “crer em Jesus”. «Cremos a» Jesus, quando aceitamos a sua palavra, o seu testemunho, porque Ele é verdadeiro (cf. Jo 6, 30). «Cremos em» Jesus, quando O acolhemos pessoalmente na nossa vida e nos confiamos a Ele, aderindo a Ele no amor e seguindo-O ao longo do caminho (cf. Jo 2, 11; 6, 47; 12, 44). (LF 18). Clara, desde a sua infância “creu a Jesus”, educada na fé por sua mãe Hortolana e mais ainda no decorrer de sua vida, tendo como ponto alto a fuga da casa paterna, “creu em Jesus”, aderindo totalmente e sempre mais a ele. Ela que assim escreveu a Inês de Praga: “Em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança” (2CCL 12-13), bem sabe o que é, literalmente, correr ao encontro de Cristo. Clara que iniciou seu caminho de fé com “passo ligeiro e pé seguro”, assim seguirá o Amado por onde ele for, em toda a sua existência terrena. Um caminho de fé iniciado com intrepidez, como intrépido será seu seguimento. Um caminho de fé apaixonado.

 

Caminho – Deus encarnado
“A fé é chamada a um longo caminho, para poder adorar o Senhor no Sinai e herdar uma terra prometida.” (LF 12). O Caminho para a terra prometida e a própria terra prometida é, para Clara, a pessoa mesma de Jesus: “O Filho de Deus fez-se para nós o Caminho” (TCL 5). Esta é uma das primeiras frases de seu Testamento espiritual, deixando claro o quanto seu caminho de fé é personificado na própria pessoa de Jesus.

 

“Para nos permitir conhecê-lo, acolhê-lo e segui-lo, o Filho de Deus assumiu a nossa carne” (LF 18). Não é este o cerne da espiritualidade, do caminho de fé em Clara e Francisco? “Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi posto no presépio (cfr. Lc 2,12)! No meio do espelho, considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa” (4CCL 19;22-23). Este modo de ser da encarnação que vai do presépio à cruz é onde também se “encarna” a fé de Clara, é onde ela firma sua espiritualidade, é sempre o Deus encarnado.

 

Espelho, olhar, tocar
“O crente aprende a ver-se a si mesmo a partir da fé que professa. A figura de Cristo é o espelho em que descobre realizada a sua própria imagem”(LF 22). E o que nos diz Clara sobre isto? Sua tão forte linguagem do espelho: “Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto” ( 4CCI 15).

 

A fé como adesão, como um configurar-se a Cristo na contemplação de seu rosto, experimentando o “olhar” como algo profundamente vivencial, transformador, que o Papa nesta encíclica nos ajuda a perceber ainda mais: “a fé aparece como um caminho do olhar em que os olhos se habituam a ver em profundidade.(...) A luz da fé é a luz de um Rosto”(LF 30). E Clara: “olhe, considere, contemple o seu esposo” (2CCL 20). O olhar de Clara ao qual ela nos convida não é um olhar vago, sem direção, é o olhar a uma Pessoa, a um Rosto, o Rosto do Esposo, uma contemplação que transforma a amante no Amado. “Transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem (cfr. 2Cor 3,18) da divindade.” (3CCL 13).

 

O Papa também nos fala na encíclica que “a fé seja, juntamente com o escutar e o ver, um tocar (...). Por meio da sua encarnação, com a sua vinda entre nós, Jesus tocou-nos e, através dos sacramentos, ainda hoje nos toca” (LF 31). Clara é muito afetiva e quase que “corpórea” em sua experiência de fé, deixa-se tocar pelo Senhor, toca-o e nos convida a tocá-lo: “Tocando-o, tornar-vos-eis mais pura”(1C 8). E continua a encíclica: “Pela fé, podemos tocá-Lo e receber a força da sua graça. Santo Agostinho, comentando a passagem da hemorroíssa que toca Jesus para ser curada (cf. Lc 8, 45-46), afirma: « Tocar com o coração, isto é crer ». A multidão comprime-se ao redor de Jesus, mas não O alcança com aquele toque pessoal da fé que reconhece o seu mistério, o seu ser Filho que manifesta o Pai. Só quando somos configurados com Jesus é que recebemos o olhar adequado para O ver.” (LF 31). Repetimos aqui a frase de Santo Agostinho: “Tocar com o coração, isto é crer ». Como não aplicar a Clara estas belas palavras?

 

Por fim, este caminho de fé, acolhimento da luz do Rosto de Jesus, não se percorre sozinho ou somente para si. “A luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e refletir para outros a sua luz”(LF 37) Clara tem a firme convicação de que somos espelho do Senhor uns para os outros, começando das irmãs entre si e para o mundo. “O próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros, estamos bem obrigadas a bendizer e louvar a Deus, dando força ainda maior umas às outras para fazer o bem no Senhor.” (TCL 19-22). Mais uma vez lembramos que a fé não é somente adesão intelectual, mas é adesão à luz de Deus em nós e portanto, fonte de alegria perene, sentido da vida, o maior dom que recebemos em nossa vida cristã que torna possível abraçar o dom sublime da nossa vocação, que não é outra coisa senão abraçar o Cristo pobre, Deus encarnado e assim, iluminadas por ele, irradiarmos esta luz a toda a Igreja que, como Mãe nos gerou na fé pelo batismo.

 

Irmã Maria Bernarda do Bom Pastor, OSC
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