A realidade para uma filha de Santa Clara é a que está no Evangelho: “O Reino de Deus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra.” (Mt 13,45-46)

Reflexões




(29/06/2013)
Reencontrar o templo do silêncio interior
Espiritualidade - Frei Almir Ribeiro Guimarães


Reencontrar o templo do silêncio interior

Tenta encontrar o caminho do interior, até o centro do coração, ali onde o homem despertando para si, desperta para Deus (Henri Le Saux, monge beneditino)

 

Não dá mais para viver na superficialidade das coisas. Chegou a hora de reencontrar o caminho do interior, do silêncio eloquente. Andar lentamente, caminhar, fechar os olhos, deixar a beleza nos penetrar: beleza de um salmo recitado lentamente, beleza de uma música que vai até o fundo, beleza de horas de silêncio. Não suportamos mais gritos e berros,  baterias e atabaques, zoada e barulheira perturbadora. Barulho de nosso ego, desse mundo inquieto que fabricamos para nós mesmos. Temos saudade de ouvir o correr suave do regato sobre as pedras do ribeiro, de escutar a brisa que baloiça as roseiras e as azaleias e nos dar conta de um murmúrio dentro de nós. Seria o farfalhar do Espírito?

 

Lá está no canto da sala a senhora dos cabelos brancos e olhos azuis,  na penumbra da sala, quieta, profundamente quieta, pensando na vida toda que viveu, agradecendo a presença do Senhor no mistério daquele silêncio de fim de tarde. Uma suave presença. Uma mulher habitada. Ela encontrou o caminho do interior.

 

Elas deslizam pelos corredores dos mosteiros. Ouviram o sino chamando para a oração. Elas, essas contemplativas, levantaram às 5h… Caminham suavemente pelos corredores do mosteiro na manhã fria.  Entram na capela, prostram-se diante do Santíssimo. O máximo de ruído que se escuta é o crepitar da vela que fora acesa para a recitação das  Laudes. Antes de começar a salmodia, há o silêncio. Olhos fechados, corpo sereno, mente acalmada. As portas do coração das religiosas estão abertas para ouvir Aquele que fala no silêncio. E cantam os hinos, cantam os salmos, misturam aleluias, mesclam tudo com longos momentos de silêncio.  Fala a letra do salmo. Fala o silêncio no asterisco do salmo. E como fala!!! Há silêncio dos sons externos… Mas há antes de tudo esse silêncio do esvaziamento. E a mulher que sai da capela, depois da Laudes e da Missa é pessoa vestida de silêncio, grávida do Deus que fala no silêncio.

 

“Conquista a paz interior e milhares à tua volta serão salvos” (São Serafim de Sarov -  1759-1833)

 

O encontro do homem com Deus conjuga duas realidades percebidas sempre em tensão na experiência humana: a palavra e o silêncio. Guardini: “A palavra é uma das formas fundamentais da vida humana. A outra forma é o silêncio, que é também um grande mistério… As duas realidades constituem uma só. Falar significativamente pode somente aquele que também pode calar. De outra forma, nada mais acontece senão um cacarejar. Calar significativamente pode somente aquele que sabe falar. De outra forma é um mudo. Nesses dois mistérios, no calar e no falar, vive o homem. A essência do homem se faz na união dos dois mistérios”.

 

Jean Guitton: “Há um silêncio que é um elemento primordial sobre o qual a palavra desliza e se move como o cisne na água. Para ouvir a palavra convém criar dentro de nós este lago sereno. Depois de ter ouvido, deixar que as ondas concêntricas da palavra se propaguem, se atenuem e morram no silêncio. A palavra vem do silêncio e ao silêncio retorna”.

Não se chega à verdade por um acúmulo de noções, de palavras, mas  por meio da capacidade de discernir a realidade. Nos escritos de um Padre da Igreja lemos: “Se amas a verdade, sê amante do silêncio. Este fará com que resplandeças em Deus como o sol, e te afastará das ilusões da ignorância” (Isaque de Nínive).

 

Quanto ao silêncio de Deus, escreve Simone Weil: “As criaturas falam com os sons. A palavra de Deus é silêncio. A secreta palavra do amor de Deus não pode ser outra senão o silêncio. Cristo é o silêncio de Deus. Não há árvore semelhante à arvore da cruz; não há harmonia semelhante ao silêncio de Deus (…).  Quando o silêncio de Deus penetra em nossa alma, abre-se uma passagem que atinge o silêncio que há em nós. Nesse momento temos em Deus nosso tesouro e nosso coração e o espaço que se abre diante de nós como um fruto que se separa em dois porque vemos o universo a partir de um ponto situado fora do espaço. Para esta operação existem somente dois caminhos possíveis e não outros, dois fios capazes de penetrar em nossa alma: a desventura e a beleza”.

 

Felizes aqueles que colocam a Palavra de Deus no silêncio de suas vidas…

 

Frei Almir Ribeiro Guimarães

 

Fonte: www.franciscanos.org.br








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